Hope: quando um episódio faz você escrever

Estava aqui tentando evitar o mundo porque a vida já num anda fácil e comecei a colocar os episódios de Black-ish em dia. Para quem não sabe Black-ish é uma série da ABC americana que tem como tema central a vida de Andre, sua mulher Rainbow (yes, Rainbow) e seus 4 filhos. Eles são uma família negra e rica. No piloto Andre se dá conta que seus filhos não tem noção do que é ser negro, ou dependendo do ponto de vista, de como um negro deveria ser. E começa a entrar em conflito com a maneira que ele e a esposa vem criando as crianças. Daí o sufixo ‘ish’  que traduzido de uma forma bem informal significa ‘mais ou menos’. A série está na 2a temporada e vem ganhando espaço por tratar de temas fortes sem perder o humor. O episódio mais falado até aqui foi Hope (Esperança) que mostra a família reunida assistindo a mais uma caso de brutalidade policial contra um negro e como tratar desse assunto.

Assistindo ao episódio por razões óbvias eu me vi representada em vários momentos e acabei pensando na situação que nos encontramos hoje (a válvula de escape falhou) às vésperas de um possível impeachment que, na minha opinião, não deveria acontecer e que poderá trazer ainda mais conflitos. Bow, a mãe, tenta fazer a voz da esperança mas vai passando o tempo e a esperança dela vai ruindo porque por mais que ela tente racionalizar tem jogado na cara os mesmos erros e as mesmas injustiças deixando difícil acreditar que houve uma melhora. Dre, o pai, que teve uma vida muito mais difícil não consegue olhar nada sem raiva porém no final vai amolecendo. E ambos veem nos filhos a esperança que talvez as coisas mudem sim. Isso me tocou tanto que eu resolvi escrever porque eu comecei a pensar em ‘tudo isso que taí’.

Eu sou a mistura desses sentimentos. E acredito que foi isso que o episódio tentou passar. Seja em relação ao racismo, a brutalidade policial, a homofobia e a situação política do meu estado (esse RJ falido, porém lindo) e do meu país, venho sentindo uma desesperança que só faz crescer. Vejo ódio nas pessoas e cada dia que passo me contamino por ele. Porque fica difícil ter esperança vendo uma manipulação de quem tem o poder da comunicação nas mãos. Fica doloroso ver pessoas com as quais você conviveu defender políticos que são contrários a melhorias que mudaram a vida de muita gente, inclusive a sua. Políticos que dizem coisas como preferir um filho bandido que um filho gay. Políticos que defendem que a solução é matar e não tentar mudar. Políticos que pedem a volta de uma período vergonhoso da nossa história que se retornar esse meu texto deixa de ser uma desabafo e passa a ser uma carta de confissão. Políticos que tiram a cada dia direitos das mulheres em nome de suas crenças, ou melhor, usando isso como desculpa. Raiva de ver que preferem no poder políticos comprovadamente corruptos no lugar de uma presidenta (com ‘a’ mesmo porque sou dessas) que errou, errou feio, está colhendo por isso mas que não tem nenhuma acusação de corrupção nas costas. É difícil demais. Muitas vezes eu esbravejo que todos devemos mesmo morrer, que o mundo tem mais é que acabar e que merecemos passar por tudo de ruim e mais uma pouco para quem sabe aprender de vez a reclamar menos e a respeitar mais. E isso não falo só em relação ao Brasil porque a coisa tá péssima no mundo todo e não é por acaso que uma episódio falando de uma realidade num país que eu sequer pisei ter mexido tanto e ter tantas semelhanças.

Porém quando vejo as piadas, quando vejo meu afilhado sorrindo, quando vejopessoas que tem suas diferenças se reunindo no meio da rua tentando frear esse ódio, vai dando um alento. Ao ler mensagens dos amigos que são dessas pessoas que tem fé na humanidade tendo esperanças, quando penso na minha mãe que sempre teve palavras boas mesmo para aqueles que não a mereciam, no ex-professor (Bob Black) que lá do Canadá está preocupado com os alunos e amigos que tem espalhado por esse mundo passo a ter uma certa esperança que talvez ao menos essas pessoas terão a oportunidade de ver algo que eu talvez não veja por ter dificuldades de manter a esperança por mais tempo. Isso pode ser porque muito nova tive que lidar com perdas e mentiras  que me tornaram uma pessoa com dificuldades para crer. E aí lembro do episódio de novo porque uma das discussões era até que ponto os filhos menores deveriam tomar conhecimento que o mundo deles está longe de ser belo e que o simples fato deles serem negros pode os colocarem em risco. Porque esse ódio vem sendo passado para as crianças sim. E aí eu volto a perder a esperança. Enfim um textão desabafo, um textão confuso. Um textão para colocar para fora parte do que estou sentindo mas que vai para o mundo porque parece que perdemos a capacidade de guardar nossos sentimentos para poucos. E que só o tempo dirá se é bom ou ruim. A única certeza é que faz-se necessário brigarmos pelo direito de poder dizer.

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